Quando se tem acesso a bom conteúdo, tem-se simultaneamente acesso a todo o entulho. Tudo o que é lixo está na Internet. Daí ter de haver uma triagem do que é útil.
Nesse aspecto, penso que o ensino de design pode ter um papel fundamental, ensinar a fazer filtros.
Está sempre tudo por desenvolver, porque, da messe maneira que vamos evoluindo enquanto sociedade, também todas as técnicas, saberes, soluções, resultados, tecnologias estão dependentes disso.
Estão em permanente mudança, assim como nós estamos em permanente devir.
O design, porque é do quotidiano, está por desenvolver sempre, inclusivamente na sua metodologia, na sua maneira de projetar, nos seus interesses, que cada vez são mais e mais abrangentes. Tudo isso só pode estar em desenvolvimento, não poderia ser de outra maneira.
Não sei se a crise está a provocar um maior impacto no design em comparação com outros cursos. Existe o problema do acesso [ao ensino superior], que é geral. A nível de tecnologias não sei, porque as tecnologias da faculdade, que é a instituição que posso tomar como referência, mantem-se. Contudo, talvez pudessem ser atualizadas. Mas não sou muito pessimista em relação a isso, só mesmo em relação às propinas.
Por outro lado, quando temos menos recursos e temos a vida menos facilitada, talvez tenhamos de criar soluções alternativas, que até podem enriquecer o nosso trabalho.
A minha visão é optimista em relação a este assunto.
Não acho que a crise represente um entrave para o sucesso.
Penso que a entrega de um portefólio é um bom critério para fazer a triagem de quem tem realmente interesse pelo curso, porque, à partida, quem o tem terá algo para exibir relacionado com a disciplina. Não é expectável que nesse mesmo portefolio o aluno tenha trabalhos com um elevado grau de maturidade, já que se trata de um resultado de nível de ensino secundário. Tem que, pelo menos, perceber-se que o aluno não se candidata apenas porque é o curso de média mais alta e, provavelmente, o curso com maior taxa de empregabilidade, relativamente aos restantes cursos de Belas-Artes.
(…) O de Desenho pode fazer sentido, mas não precisamos de saber desenhar para ser designers, na minha opinião. Precisamos de ter alguma noção espacial e compositiva, mas é possível tê-las sem se saber propriamente desenhar. Precisamos de alguma noção espacial e compositiva, mas é possível tê-las sem se saber propriamente desenhar.
Sei que não foi pensado [o curso de Design de Comunicação] somente pelos professores que acabariam por encarreirar pelo design, houve inclusivamente a intervenção de professores de cadeiras teóricas.
O que é facto é que somos filhos das Artes Plásticas e dos professores que lecionavam estes cursos, porque os de Design começaram a chegar a meio, (…).
Antes, era mais artes gráficas, agora é mais design de comunicação. As artes gráficas fazem falta, porque são a nossa escrita. O desenho faz desalmadamente falta, porque é a nossa linguagem, e o desenho desapareceu.
(…) A nossa escrita é o desenho. Não temos a escrita do desenho suficientemente desenvolvida. Estamos, lentamente, a tornar-nos analfabetos.
Há sempre aquela dicotomia de: ‘Design e Arte.’, ‘Será que se engloba
[o design] nas Belas-Artes?’.
Tradicionalmente, a nossa faculdade não incluiria o design, mas também quando as Belas-Artes foram fundadas ainda não existia design, pelo menos como existe hoje.
Tenho conhecimento de cá se desenvolverem trabalhos relacionados com alfabetização. Recordo-me que o Desenho de Estátua era uma das provas que se fazia para entrar para Belas-Artes, passando-se cá um dia inteiro a desenhar.
Mas os estudantes entravam mais ou menos a ‘granel’. Quem quisesse entrar, entrava. Tivesse habilitações médias, mínimas, razoáveis, entrava, pelo menos numa primeira fase.
Talvez haja uma maior facilidade da parte dos estudantes para se organizarem, por estarem no contexto universitário, em contato com muitos ideais e ambições diferentes. Não estou, com isto, a dizer que isso não aconteça fora da envolvente académica.